É um belo documentário sobre a dura vida dos catadores de lixo. Logo no começo, o filme força a barra, quando mostra o Vick Muniz falando com um amigo brasileiro sobre um aterro de lixo no Brasil. Ele quer fazer um trabalho por lá, mas fica um puta clima de suspense no ar, porque o aterro fica perto da favela, e ele não sabe como será a sua aceitação, pode ser arriscado…
Claro, que depois de visitar o aterro, fica evidente o clima hospitaleiro dos catadores brasileños, alguns fazem troça em meio ao ensaio fotográfico, outros se aproximam mais, e aos poucos, vão sendo apresentados os personagens, que serão retratados pelo artista em grandes figuras feitas com material recolhido do lixo.
Apesar do início forçado, o documentário é interessante, pois mostra pessoas que tiveram grandes problemas na vida, como falecimento de pai, mãe, enfrentando sérias dificuldades financeiras, e que se viram sem outra alternativa, senão trabalhar como catadoras de lixo. Aliás “lixo não, pois o lixo é algo que não tem utilidade, e sim, catadores de material reciclável.”, explica Tião, uma das estrelas resgatadas no aterro, em entrevista para o Jô.
Outra que chama atenção é a personagem Isis, que chora copiosamente pelo amor que encontrou e perdeu no lixo, cá entre nós, amor achado no lixo não poderia dar certo. E eis que o homem de quem ela gostava muito era casado, logo não quis jogar fora o casamento, em troca de uma catadora de lixo, por mais que Isis tivesse prestado grandiosa homendagem, tatuando o nome do paquera estrategicamente em sua própria perna.
Latinices à parte, o filme é uma verdadeira lição de vida. Enquanto nós ficamos sentadinhos em nossas poltronas confortáveis, tomando nosso banho quente, algumas vezes até reclamando das coisas, tem gente que foi parar no aterro, foi ganhar a vida no meio do lixo, no forte odor azedo de comida estragada, restos de papel higiênico e urubus, comendo comida vencida e tomando banho com caneco.
Gostei da abordagem que mostra a trajetória da personagem que explica como o trabalho em parceria com o artista mudou a sua vida. Ela resolveu se separar do marido e passou a valorizar-se, bem como o seu trabalho. Em certos momentos é evidente como os trabalhadores que lidam com lixo possuem uma autoestima mais frágil. Sentem a discriminação da sociedade por terem de andar com um perfume que só agrada a baratas e ratos.
Aliás, muitos se orgulham de não terem entrado para o mundo das drogas. As mulheres, orgulham-se de não terem se prostituído. Nesse caso, rolaria um debate legal, afinal de contas, será que a profissão tida como uma das mais antigas do mundo também não merece respeito, ou é menos digna?
Para concluir, ainda tem a fala do Vick Muniz, ele afirma que prefere ser alguém que não tem nada e quer tudo, do que ser um cara que tem tudo e não quer nada. O artista justifica que a vida perde o sentido quando ele alcança tudo o que deseja, e conta que já precisou comprar muitos bens materiais, os quais se refere carinhosamente como muita porcaria.
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