impreciso

25 nov

Amanhã acordarei tarde, com a certeza de que dormi oito horas diárias de sono mal dormido. Passarei mais duas horas pensando nos problemas da vida, com a certeza de que perdi duas horas pensando nesses mesmos problemas, da vida, dívidas, dúvidas. E terei a certeza de que se eu tivesse acordado antes, se tivesse me levantado mais cedo, talvez estivesse fazendo algo para de fato resolvê-los, ao invés de pensá-los e de vivê-los com empenho e sofrimento.

A cada esquina que eu dobro, eu tento não olhar para trás. A cada rua que eu passo, encontro um pedaço de mim, um corpo abandonado em milnovecentosenoventaealgumacoisa. Sinto a nostalgia no seu termo mais original, que tem a definição no sentimento vivo e real de um membro que o corpo já perdeu. Amanhã quiçá eu me deixo dobrar de novo por alguma menina em alguma esquina. Amanhã, não sentir saudades quisera eu.

Amanhã vou me lembrar de que a única certeza dessa vida é a morte, ainda sim esforçar-me-ei para que eu tenha outras certezas e menos essa rondando pela minha cabeça. Quero ter a certeza de que no restante dos dias eu tenha pão com manteiga na minha mesa de café da manhã, com a mesma certeza de que, em uma semana já não mais agüentarei comer pão com manteiga. Desse dia em diante, começarei a entender ou relembrar o significado dessa minha falta de paz interior, por querer que os dias e as comidas não se repitam e desejar que as coisas continuem iguais no tempo em que nada (nos) se dividia, nem amigos, amores e melodias.

Depois do café sem fome eu vou abrir na história em quadrinhos na página em que o vilão, camaleão, entra em crise de identidade. Que de tanto se converter em imitações de outros personagens, guitarristas, designers, jornalistas e publicitários, não saiba mais quem ele é em sua originalidade, porque só pode ser que isso o incomode. E nesse momento eu serei o garoto / moleque a folhear uma revista com deleite pueril, perdendo-se no fio da meada.

Depois do almoço, quero crescer e ser moço, para poder ler os filósofos barbudos discutirem o significado da palavra amor. Com a certeza de que nenhum deles conseguirá me explicar com mil palavras em mil pedaços de folhas encadernadas tão bem o que é o amor quanto o beijo real de uma mulher deitada em minha cama. E mesmo assim não saberei o que é o amor para quem se ama, de quem a gente ama.

Na janta, nada de canções melosas de Marcelos animais desérticos com Magalaloo Malhães tenho apenas 15 anos mas sei tocar violão. Na janta vou comer o pão que algum diabo amassou na sua jornada de trabalho pela padaria. De novo o pão com manteiga. De noite a solidão vem mais intensa. Na mesma padaria vou pedir um sonho, suspiro, alguma coisa doce, pois é o doce que eu queria. Não doce todo dia. Um doce com a incerteza de que ela não fosse mais me ligar. E de repente o doce foi ficando amargo, amanhã.

Já de noite, eu vou reler tudo o que foi durante o dia inteiro, lembrarei das dores com menos dores, por já ter passado por elas. Vou ver a história do começo ao fim tentando estabelecer algum sentido. Sem querer ferir, interferir, mas já tendo ferido. Os ponteiros do meu relógio vão batendo fora de ritmo, pulsando como um coração impreciso.

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