L’homme qui vendit son âme au diable*

7 nov

Na sala do interrogatório havia bastante luz. Suas mãos estavam algemadas, por trás das costas. Sob olhares condenatórios havia uma face visivelmente abatida. Apesar de toda tristeza contida em seu ser, ele era incapaz de derramar uma lágrima. Pensava que até o choro contido fosse mais um dos castigos por ter cometido a maior audácia que os homens poderiam fazer, vendera sua alma ao demo.
- Quantas vezes vocês se encontraram? Quanto você cobrou?
- Eu não sei, talvez nunca. O preço eu também não sei mensurar, foram apenas alguns desejos…
Dessa vez, não havia detetives carrancudos soprando fumaça de cigarro na direção do seu rosto, havia uma lei que impedia o consumo de cigarros em recintos fechados. O agente mais velho parecia indignado com as respostas evasivas:
- Como assim? Se você não o encontrou, não assinou contrato. “Alguns desejos”, como você pode vender a sua alma tão barato!?
- Eu sempre pensava no sucesso, fama, dinheiro, mulheres. Aliás, pensava muito no dinheiro, achava que por meio deste eu conseguiria qualquer coisa que quisesse.
- Seu burro! Como pode?
- Eu não sei, mas quanto mais perto eu chegava dos meus objetivos, mais longe eles iam ficando. Era como se eu criasse novos desejos no lugar dos antigos. Quanto mais dinheiro eu tinha, mais me vinha à mente a propaganda dos cartões de crédito que dizia que para algumas coisas era preciso dinheiro para todas as outras existia o cartão. De repente eu me vi sem nada, os cartões sumiram do meu bolso, senti um vazio enorme no peito, me vi fazendo pessoas sofrerem.
- Então foi aí que você se deu conta?
- Eu não sei, cheguei num ponto em que eu não tinha mais prazer em nada, parecia que era a hora de pagar o preço, que aliás eu já estava pagando, eu ia me entregar.
- Conte mais sobre ele… Como você fez contato? Perguntou o agente 2.
- Teve que rodar algum disco de vinil de trás pra frente, comprar alguma boneca de apresentadora lasciva de programa infantil? Completou o agente 1.
- Não, eu só pensei nas bandas de rock que eu gostava, queria ser igual a eles, morrer jovem e viver intensamente…
- Só isso? Não é possível que você tenha se vendido por um preço tão barato, até parece aqueles garotos de calças coloridas que nós interrogamos semana passada. Aqueles são caso perdido.
- É aqueles lá se venderam muito barato, nem música boa eles fizeram questão de exigir no contrato, deu no que deu.
Olha rapaz, você é muito novo ainda, nós vamos te liberar, você terá uma segunda chance. Como você vai fazer para acertar suas contas com o rubro, se vira. Mas vou te dar uma dica, a solução é tão simples, e vou te dizer, ele gosta de passar as pessoas para trás mas odeia ser ludibriado. Apague o seu passado, escreva uma nova estória, só que mais bonita, digna de ser lembrada, faça por merecer, e quando ele vier lhe cobrar algo, lá pelo fim da estrada, faça que nem a Argentina, dê um calote.

(*O Homem que vendeu a alma ao diabo.)

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